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Capítulo 5 – Juninho

  • T.S.Duque
  • 10 de set. de 2015
  • 4 min de leitura

Lembrava-se com frequência do dia em que os valentões de sua escola o perseguiram. Vamos acabar com a sua raça, diziam eles sem motivo. E a frase ecoava em seus ouvidos enquanto corria em direção a sua casa, o único lugar que parecia seguro naquele momento. Sentia medo. Sentia vergonha por não pode enfrentar. Vergonha por não ter coragem. Vergonha por sempre estar fugindo de alguma coisa. E raiva. Sentia muita raiva e não sabia diferenciar se era maior por si mesmo ou pelos outros, só sabia que ela existia dentro de si.


Quando enfim chegava em casa se sentia seguro e a raiva ia embora. Uma casa reconfortante. O único lugar da terra que lhe fazia se sentir em paz. Uma paz que foi completamente dizimada com a guerra.


Aquela região em que nasceu foi sempre uma zona de conflito. O governo ditador controlava tudo e manipulava todos os recursos sem piedade, de modo a deixar todos em extrema dificuldade de sobrevivência. Uma situação que durou anos, se não décadas e que, mesmo se tentasse, não conseguiria se lembrar quando começou, pois foi muito tempo antes de nascer.


Outra coisa, no entanto, se lembrava. Quando forças rebeldes se cansaram de tal ditadura e passaram a lutar contra esse governo. Na época era muito pequeno para entender e tentava levar a vida normalmente, como todos os outros. Indo a escola. Brincando nas ruas. Fazendo amigos e inimigos de vez em quando. Coisa de criança. Mas quando a guerra bate à sua porta não é possível fugir. Não é possível escapar. Você precisa escolher um lado.


Logo os rebeldes ganharam força e a devastação foi instalada. Não é difícil passar dos limites depois de ser subjugado por tanto tempo. A falta de adeptos também não é um problema. A nação inteira estava querendo lutar contra aquilo. Logo, a grande maioria topou. A rotina de ir para a escola, brincar na rua, andar livremente nas praças, ainda que numa vivencia sem coisas básicas para a saúde e sem muitos recursos de higiene e alimentação, deu lugar a prédios inteiros destruídos, milícias armadas patrulhando as ruas e atirando em quem dava vontade, bombas sobrevoando as casas e destruindo quarteirões inteiros em questão de minutos.


Naquele dia havia insistido para sua mãe deixa-lo ir para a escola. Sabia dos perigos, sabia dos valentões, mas era a única coisa que o fazia feliz naquele inferno, pois adorava aprender e queria estar preparado para quando surgisse a oportunidade de ir embora dali.


No fim da aula foi tudo igual. Mais uma vez se viu indo embora correndo de seus perseguidores em busca da paz de sempre. Correndo para não ser apanhado. Correndo por que não queria enfrentar. Correndo em direção à paz.


Quando chegou na rua de casa naquele dia, as pernas pararam e o que passou a correr, porém, sob seu rosto, foram as lágrimas. Já havia presenciado muita destruição, mas ver a própria casa em ruinas lhe levou ao choque. Um choque que uma criança de doze anos sente quando sabe que acabara de perder a mãe, o pai, os irmãos e aquilo a que chamava de lar.


Quando olhou ao redor e viu que todas as outras casas também haviam sido destruídas caiu de joelhos, mais por impotência do que por desespero, e passou a chorar. Logo os valentões o alcançaram e, igualmente impressionados com o que acontecera, pararam ao lado de Juninho, como um cachorro que corre atrás de um carro e não sabe o que fazer quando o alcança. O chão havia sumido. Não havia mais para onde correr. E quando a presa se entrega a brincadeira do caçador perde a graça.


Vendo o desespero de Juninho os outros garotos se ajoelharam ao seu lado tentando confortá-lo e Juninho pode ver agora que eram três. Praticamente da mesma idade que ele. Olhando nos olhos de cada um Juninho pode ver os últimos resquícios da humanidade que já estava tão pouco acostumado naquele cenário de destruição.


Agora, tanto tempo depois e a quilómetros de distância, Juninho se via na mesma situação. Até aquele momento havia sido escravo de todas as situações que a vida havia lhe imposto e, mesmo depois de fugir de suas origens, havia encontrado outro caminho semelhante, ou ainda pior, para trilhar.


Ao fugir daquela caverna viu todos os seus medos e lembranças voltarem, mas entendeu definitivamente que, dessa vez, não poderia ficar de braços cruzados, precisava impedir aquilo e decidiu fugir dali para se preparar para o pior. Alguém vai me dar ouvidos, alguém vai me ajudar a impedir isso. Pensava, porém, não com tanta convicção.


Quem iria acreditar em uma pessoa que diz que um homem voltou dos mortos e vai destruir a humanidade? Dificilmente alguém acreditaria. No entanto sabia os passos daquele ser. A melhor maneira de destruir um inimigo é conhecer os seus passos.


É aí que vou atacar. É assim que vou te destruir.


E continuou correndo para bem longe dali. A última vez que corro, pensou. A última vez que fujo, desejou. E correu, mas dessa vez, não foi em direção à paz.


 
 
 

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