Capítulo 3 - Cícero

Nunca é simples quando acontece com você. O cansaço já tomava conta de Cícero de uma forma difícil de descrever e não era um cansaço comum, aquela fadiga que costuma tomar conta do corpo depois de um exercício físico, era algo mais pesado, muito mais pesado do que tudo o que já sentira. Não sabia, ou não teve tempo ainda de discernir, se era apenas pelas inúmeras horas que já estava em meio àquela situação ou por pensar no que viria a seguir.
Depois que Marcos partiu, Cícero imediatamente chamou a polícia, e ele, como único ser existente naquela cena de crime, era um suspeito em potencial, ainda mais por não conseguir descrever direito o que havia acontecido.
- Estávamos caminhando pelo cemitério – dizia ele -, uma...uma caminhada de rotina, como fazíamos todos os dias no fim do turno, e então ouvimos um barulho.
- Ouviram um barulho? – O detetive perguntou, muito mais desconfiado do que interessado – Que tipo de barulho ouviram?
- Não sei, foi como...como um resmungo ou terra se mexendo, não fiquei para ver.
- Não ficou? – Cícero foi interrompido – Explique melhor.
- Não fiquei, simplesmente não fiquei. É algo comum também, barulho no cemitério, nunca foi nada demais. Marcos me pediu para ir arrumando nossas coisas para irmos embora e ele iria ver o que estava acontecendo.
- Então, me deixe recapitular – disse o Detetive, com extrema calma -, vocês estavam andando, ouviram um pequeno barulho e daí você foi embora e deixou Marcos lá sozinho?
- Isso – Cícero respondeu, já sem muita convicção. Não seria fácil convencê-lo de sua inocência.
- Estou curioso, é...
- Cícero, me chamo Cícero.
- Certo Cícero, estou curioso. Quando você deixou Marcos sozinho com o...é, como posso dizer, com o barulho, ele estava vivo?
- É claro que estava vivo – Cícero se irritou -, o que está insinuando? Ele era meu amigo. Não teria motivo algum para mata-lo. Será que não percebe?
- Precisamos considerar todas as hipóteses Cícero – disse o Detetive, parecendo ainda mais calmo agora, talvez querendo deixar Cícero igualmente calmo -, até termos certeza dos fatos essa investigação precisa ser feita com cuidado e seria muito bom que você colaborasse, pois isso pode te ajudar futuramente.
Cícero estava incrédulo com o caminho que aquela conversa estava trilhando. Ele pensa que eu sou o assassino. É compreensível, mas completamente ridículo.
- Olha – Cícero tentou continuar argumentando, o mais calmo possível -, sei o que está querendo dizer. É tudo muito conveniente. Estarmos sozinhos. A história do barulho. Eu ser o único por perto quando vocês chegaram. Mas eu garanto que não tenho nada a ver com isso. Nunca faria uma coisa dessas. Nem mesmo tenho motivos para isso.
- Entendo, mas se você soubesse a quantidade de pessoas que fazem coisas como essas sem motivos ficaria impressionado. O ser humano é ruim por natureza. As pessoas são assim. Tem até aqueles que fazem as coisas e dizem que não se recordam – o Detetive pareceu dar uma piscadela -, mas vamos em frente, tenho certeza que vamos pegar esse desgraçado – o Detetive folheou algumas páginas do que parecia ser uma caderneta de anotações e levantou uma pequena foto. – Nós encontramos isso, lhe soa familiar?
Cícero estremeceu e sentiu seus ombros ainda mais pesados, o que dobrou o cansaço que sentia em pelo menos cem vezes. A foto não mostrava muito, devido a escuridão e o flash estava focado apenas no mais importante: um enorme buraco no chão. Em paralelo via-se um pequeno pedaço da lápide, onde se lia Irin, com a última letra N cortada pela metade por uma rachadura que parecia ir de ponta a ponta. Abaixo do nome estava gravado o ano de nascimento, mas não havia gravado o ano da morte, assim como o final do nome, talvez houvessem sido apagadas pelo tempo.
- Vamos a ideia mais provável até o momento senhor Cícero – continuou o Detetive, parecendo cansado da conversa, mas ao mesmo tempo querendo resolver aquilo ali mesmo. Parecia do tipo que gostava de casos curtos e simples, o que não parecia ser o caso – por algum motivo você, ou seja lá quem for, precisava desse corpo que estava enterrado aqui, que me parece ser de um indivíduo chamado Irineu e, pra conseguir isso, é óbvio, teve que matar o responsável por manter esse lugar em segurança. Não tenho ideia ainda do motivo de por que alguém iria querer um corpo que já voltou ao pó a tanto tempo, mas isso faz parte de outra investigação, no momento precisamos saber o por que alguém gostaria de mandar Marcos para o lugar de onde saiu esse tal de Irineu.
- Eu, eu gostaria muito de poder ajudar Detetive – Cícero falou -, mas juro que não faço ideia do que aconteceu depois que deixei Marcos sozinho.
- Está certo – o Detetive respondeu, dessa vez ignorando completamente a paciência que vinha tendo até aquele momento -, já está tarde. Você deve estar cansado. Vamos conversar mais amanhã, talvez um descanso o ajude a recobrar as memórias. Sugiro que fique por perto. Não quero ter de ir atrás de você e, acredite, você também não vai querer isso.
- Tudo bem Detetive. Vou deixar meu endereço e...
- Não precisa – interrompeu -, já sei bastante coisa a seu respeito.
O Detetive se levantou e passou a caminhar em direção a movimentação. Cícero podia observar lá fora o corpo do amigo sendo removido e levado para a ambulância ali perto. O cemitério estava cheio, de uma maneira que Cícero nunca havia visto, afinal de contas não existe badalações em um lugar cheio de morte. Também via as luzes vermelhas rodeando o local, que tornava tudo ainda mais fúnebre. Cícero se levantou também, mais por educação, e viu o detetive se afastar.
- Escute – o detetive se virou de repente -, há mais alguma coisa que queira compartilhar? Existe algo que Marcos tenha lhe dito antes de partir?
Cícero se lembrou da chave, mas definitivamente não estava pronto para falar sobre aquilo. Aquele realmente não seria um caso para aquele detetive. Não era um caso simples. Não é um caso para você, pensou e balançou a cabeça de forma negativa.
Esse é um caso para mim.




















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